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quarta-feira, 19 de março de 2008

Esboços de uma sociedade planetária sustentável

Utopia? Custa sonhar?

Esboços de uma sociedade planetária sustentável
Por Fritjof Capra e Ernest Callenbach*

O conceito de sustentabilidade transformou-se num elemento chave no movimento global, crucial para encontrar soluções viáveis para resolver os maiores problemas do mundo. O que significa isto? Lester Brown, fundador do Worldwatch Institute, elaborou uma definição clara: "Uma sociedade sustentável é aquela que satisfaz as suas necessidades sem diminuir as possibilidades das gerações futuras de satisfazer as delas".

Como seria, verdadeiramente, uma sociedade sustentável? Ainda não há modelos detalhados, mas na última década surgiram critérios básicos que nos permitem desenhar a forma emergente das sociedades sustentáveis.

A sustentabilidade global requer uma drástica diminuição do crescimento mundial. As sociedades sustentáveis terão populações estáveis, como as que têm hoje em dia 13 países europeus e o Japão. A população mundial deverá se estabilizar no máximo em oito bilhões de pessoas. As economias sustentáveis não serão movidas por combustíveis fósseis, mas sim por energia solar e suas muitas formas diretas e indiretas: luz solar para aquecimento e eletricidade fotovoltaica, energia eólica, hídrica e assim por diante. A energia nuclear deixará de ser usada devido a sua longa lista de desvantagens e riscos econômicos, sociais e ambientais. Os painéis solares aquecerão a maior parte da água doméstica ao redor do mundo, e a maior parte da calefação será feita pela entrada direta dos raios solares.

Com as células fotovoltaicas, os lares, em todas as partes do mundo, serão tanto produtores quanto consumidores de eletricidade. A produção de energia será muito mais descentralizada e, por isso mesmo, menos vulnerável aos cortes ou apagões.

Um sistema energético sustentável será também muito mais eficiente. A economia de combustível dos automóveis será duas vezes maior. Por sua vez, a eficiência dos sistemas de iluminação será três vezes melhor, e as necessidades de aquecimento diminuirão em 75 por cento. Tudo isto hoje em dia é possível graças às tecnologias já existentes.

O transporte numa sociedade sustentável será muito menos esbanjador e poluente do que hoje. As pessoas morarão muito mais perto dos seus lugares de trabalho e se movimentarão nas vizinhanças por sistemas altamente desenvolvidos de ônibus e transportes sobre trilhos. Haverá menos automóveis particulares. As bicicletas serão um veículo importante no sistema de transporte sustentável. Hoje em dia, já há no mundo duas vezes mais bicicletas do que automóveis. Nas indústrias sustentáveis, a reciclagem será a principal fonte de matéria prima. O design de produtos se concentrará na durabilidade e no uso reiterado, em vez da vida curta e descartável dos produtos. O desejável será uma mentalidade baseada na ética da reciclagem. As empresas de reciclagem ocuparão o lugar das atuais companhias de limpeza urbana e disposição final do lixo, reduzindo a quantidade de resíduos em pelo menos em dois terços.

Uma sociedade sustentável necessitará de uma base biológica restaurada e estabilizada. O uso da terra seguirá os princípios básicos da estabilidade biológica: a retenção de nutrientes, o equilíbrio de carbono, a proteção do solo, a conservação da água e a preservação da diversidade de espécies. É provável que as áreas rurais tenham maior diversidade do que atualmente com o manejo equilibrado da terra, em que haverá rotatividade de plantações e de cultivo de espécies. As empresas que produzirem alimentos e energia serão mais populares.

Não haverá desperdício de colheitas. Os bosques tropicais serão conservados. Não haverá desmatamento para obtenção de madeira e outros produtos. Pelo contrário, milhões de hectares de novas árvores serão plantados. Os esforços para deter a desertificação transformarão as áreas degradadas em terrenos produtivos. O uso exaustivo de pastagens será eliminado, assim como haverá modificação na cadeia alimentar das sociedades afluentes, para incluir menos carne e mais grãos e vegetais.

Novas indústrias sustentáveis estarão mais descentralizadas, fomentando uma maior independência nas grandes cidades. Os sistemas de valores que enfatizam a quantidade, a expansão, a competição e a dominação darão lugar à qualidade, à conservação, à cooperação e à solidariedade. À medida que a acumulação de riqueza material perder sua importância, a distância entre ricos e pobres diminuirá, eliminando muitas tensões sociais.

A característica decisiva de uma economia sustentável será a rejeição da cega busca de crescimento. O produto interno bruto será reconhecido como um indicador falido. No lugar do PIB, as mudanças econômicas e sociais, tanto quanto as tecnológicas, serão medidas por sua contribuição à sustentabilidade. Em um mundo sustentável, os orçamentos militares serão uma pequena fração do que são hoje. Em vez de manter caras e poluidoras instituições de defesa, os governos poderão investir em uma fortalecida Organização das Nações Unidas para a manutenção da paz.

As nações descentralizarão o poder e a tomada de decisões dentro de suas próprias fronteiras. Ao mesmo tempo, estabelecerão um grau de cooperação e coordenação sem precedentes em nível internacional para solucionar problemas globais. As diferenças ideológicas se dissiparão frente à crescente consciência de que a Terra é o nosso lugar comum, não importando os nossos diferentes antecedentes culturais. A compreensão de que todos nós compartilhamos esta Terra será a fonte de um novo código ético.

A imagem de uma futura Terra sustentável tem sido pintada com grandes pincéis. O desafio das próximas décadas é aperfeiçoar os detalhes, por meio do trabalho das corporações, dos governos, das organizações ambientais, dos partidos políticos e dos cidadãos. Nós acreditamos que o ideal da sustentabilidade é uma preciosa meta, estimulante para os seres humanos, cansados de uma época esbanjadora e destrutiva.


* Fritjof Capra é físico e teórico de sistemas. Ernest Callenbach é ambientalista.

(Envolverde/Instituto Ethos)

© Copyleft - É livre a reprodução exclusivamente para fins não comerciais, desde que o autor e a fonte sejam citados e esta nota seja incluída.


De http://www.envolverde.com.br/?materia=44616

terça-feira, 4 de março de 2008

Japão quer liderar criação de aldeia global sustentável

Aqui estamos atrasados também neste ponto: quem dentre os políticos se preocupa com isto??

Japão quer liderar criação de aldeia global sustentável
da Folha Online

O investimento do Japão em tratamento de lixo se justifica pela aspiração de liderar o mundo na criação de uma aldeia global sustentável. Na última década, o país reiterou esforços e fez uma reforma política nas áreas de tratamento de lixo e reciclagem e criou não somente esse projeto global, mas uma filosofia chamada de 3Rs (reduzir, reutilizar e reciclar).

O projeto ambiental do Japão foi motivado pelos problemas no tratamento de lixo surgidos devido ao grande crescimento econômico que o país teve, depois da 2ª Guerra Mundial. O lixo --inclusive o contaminado com substâncias tóxicas-- começava a se acumular, por o país ser muito pequeno --tem mais de 128 milhões de habitantes e apenas 377.801 km2 enquanto o Brasil tem mais de 184 milhões de habitantes, mas 8.514.876 km2.
Arquivo pessoal
Terreno destinado a aterro sanitário de cinzas em Okinawa
Terreno destinado a aterro sanitário de cinzas em Okinawa

Para o Japão, uma sociedade sustentável é aquela que reduz a geração de lixo, usa o próprio lixo como fonte sempre que possível e dispensa o que não pode ser reaproveitado de um jeito apropriado, que preserva os recursos naturais e não produz impacto no ambiente. Para isso, o país espera contar com a tecnologia.

Como exemplo cita a comercialização de cartuchos para impressoras com tintas apagáveis e a popularização de técnicas como a que transforma garrafas PET em cabides plásticos.

Outros exemplos da avançada tecnologia do Japão no tratamento de lixo são a mecanização do sistema de coleta --o governo diz que os empregos são compensados na ampliação das empresas especializadas em transformar lixo em mercadoria--; a reutilização dos materiais de construção; e o uso de cinzas das incineradoras para produzir ecocimento.

Baleias

Um fator que depõe contra o Japão na questão ambiental é o da caça às baleias. Só neste ano, o país planeja caçar 935 baleias minke e 50 baleias fin. Inicialmente, outras 50 baleias jubarte --uma espécie ameaçada-- também seriam mortas, mas a reprovação internacional fez com que o Japão recuasse. O governo australiano luta para provar que o Japão realiza caça comercial --e não científica, como alega.

(de http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u374982.shtml)