quarta-feira, 23 de julho de 2008

Pilhas, baterias e lâmpadas com... mercurio!

A exemplo de Portugal, crie-mos recipientes para recolher este tipo de lixo! Coloquemo-los nas vias públicas!

LEI PREVÊ MULTA POR DESCARTE

IRREGULAR DE PILHAS E BATERIAS


A nova regulamentação da Lei de Crimes Ambientais, sancionada em decreto assinado ontem (22) pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, define como infração e prevê o pagamento de multa para empresas que não derem destinação correta a produtos tóxicos, como pneus, pilhas e baterias. O valor da multa pode chegar a R$ 50 milhões. Entre as novas infrações também previstas pelo decreto, que tem mais de 100 artigos, está a previsão de multa para quem deixar de registrar reserva legal. De acordo com a legislação, as propriedades na Amazônia Legal têm que preservar 80% da área com cobertura florestal original. No Cerrado, esse percentual é de 35% e nos outros biomas, 20%. O proprietário que já desmatou percentual maior que o permitido pela lei, terá que assinar um termo de ajustamento de conduta para recuperação da área. Os proprietários que mantiveram as reservas legais em suas terras serão obrigados a protocolar nos órgãos ambientais dos estados, em um prazo de 120 dias, a averbação da manutenção dessas reservas. Quem não fizer o registro, será multado.

O ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, acredita que a mudança vai dar mais efetividade à lei. “Vai acabar a impunidade ambiental. Não somos bobos nem ingênuos; quem insistir em desafiar a legislação vai sentir a mão pesada do ministério, do Ibama [Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis] e da Polícia Federal. Temos tudo de bom para quem quiser entrar na legalidade”, apontou. De acordo com a procuradora geral do Ibama e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Andrea Vulcanis, o decreto também “aperfeiçoa regras” para aplicação de sanções contra indústrias que liberem odores desagradáveis, “mesmo que não represente risco à saúde”. Outra mudança listada pela procuradora é a possibilidade de conversão de parte da multa em “prestação de serviços ambientais” em unidades de conservação ou financiamento de iniciativas de educação ambiental, por exemplo. “A regulamentação assinada hoje corrige brechas do decreto anterior [de 1999]. Isso deixa a legislação mais clara”, avalia Andrea. As novas regras entrarão em vigor depois da publicação do decreto no Diário Oficial da União, que dever ocorrer hoje (23). Por Luana Lourenço – Foto José Cruz/ABr



(do Jornal Absoluto - http://www.jornalabsoluto.com.br - de 23/07/2008)

terça-feira, 22 de julho de 2008

"(...) decisão de banir produtos químicos das lavouras não teve caráter técnico e foi baseada apenas na opinião de um juiz."

Agrotóxicos... Um leigo (o juiz) decide se vai ser usado ou não!

Liminar veta agrotóxicos perto do parque das Emas

FELIPE BÄCHTOLD
da Agência Folha

O risco de contaminação de parques nacionais por agrotóxicos aplicados em lavouras próximas vêm deixando em alerta pesquisadores e chefes das unidades de conservação. Em Goiás, no parque nacional das Emas, a Justiça Federal suspendeu o uso de produtos químicos numa faixa de dois quilômetros ao redor da unidade --só um tipo, pouco tóxico, permanece liberado.

Segundo pesquisa feita na USP (Universidade de São Paulo), os agrotóxicos têm afetado pelo menos uma ave em processo de extinção no local, um dos 17 pontos do país considerados Patrimônio da Humanidade pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura).

O estudo, finalizado em 2007, aponta que a maior parte da população da ave em questão --o bacurau-do-rabo-branco-- acumulava quantidades altas de um produto usado na lavoura. O agrotóxico chega ao pássaro por meio de insetos que vivem nas plantações e servem como alimento.

Muitas lavouras das imediações, a maioria de soja e milho, usam aviões para pulverizar inseticidas e herbicidas. A Justiça considerou que havia "descaso" na elaboração de um plano para ocupação das áreas em volta ao parque e concedeu a liminar.

A administração do parque diz que houve demora porque não há um modelo de pesquisas no país sobre efeitos do uso de agrotóxicos. Agentes da unidade e do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) já alertam produtores da região sobre a determinação judicial. O parque tem área equivalente à da cidade de São Paulo.

Bahia, Minas e Piauí

No parque nacional da Chapada Diamantina (BA), em meio a brigas entre ambientalistas e produtores de batatas, biólogos da USP e da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia também estudam os efeitos dos produtos químicos. O resultado sai no fim do mês. O Ministério Público tem promovido audiências sobre o tema.

No parque nacional de Caparaó (MG), a administração está refazendo um plano de controle para evitar contaminação de agrotóxicos. No Piauí, agricultores do entorno do parque das Nascentes responderam a processo administrativo por descartarem embalagens de agrotóxicos dentro da área de conservação, em 2005. Uma multa de R$ 500 mil foi aplicada.

O responsável pela pesquisa sobre o parque das Emas, Sady Valdes, da Esalq (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz) de Piracicaba, afirma que qualquer unidade de conservação que faça limites com áreas agrícolas tem a fauna exposta a agrotóxicos.

Segundo ele, a ameaça é maior no cerrado porque nas culturas de soja e algodão --típicas da região-- o uso de agroquímicos é intenso.

Gemiro Carafini, presidente da associação de produtores de grãos de Mineiros (GO), ao lado do parque das Emas, diz que a liminar contra agrotóxicos "inviabiliza a agricultura" na região. "Quando o Ministério [da Agricultura] libera um produto, libera para o país, não só para A, B ou C", diz. Segundo ele, a decisão de banir produtos químicos das lavouras não teve caráter técnico e foi baseada apenas na opinião de um juiz.

(de http://www1.folha.uol.com.br/folha/ambiente/ult10007u424800.shtml)

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Uma alternativa para o salame bovino/suíno: o salame de peixe

Mas alguém pode me perguntar: - "E o que isso tem a ver com o meio-ambiente?"...

Tema ver, se formos pensar que isto oferece alternativa para a criação de bovinos e suínos. E para prover uma renda alternativa aos agricultores familiares.

Publicado no Diário Catarinense de 21 de julho de 2008 - edição 8137 (Campo e Lavoura):

Peixe vira salame e pode agregar valor

Opção saudável ao consumidor

Uma opção mais saudável e com menos gordura é a novidade apresentada pelo curso de Química Industrial de Alimentos da Universidade do Contestado (UnC), de Caçador. Depois de um semestre de testes e experimentos, o salame de peixe está pronto para sair do laboratório para ganhar as pequenas propriedades da região.

O gosto suave da carne de peixe se torna mais encorpado com os temperos naturais. Além de salsinha, cebolinha, alho, coentro e urucum - um corante natural - o salame recebe pimenta, que proporciona um toque mais picante.

O processo para fazer o salame de peixe é praticamente o mesmo do produto tradicional, feito com carne suína. Depois de retiradas escamas, víceras e a cabeça, o peixe é triturado.

A partir daí é feita uma massa, que misturada com os temperos fica pronta para ser envolvida pela tripa de bovino, que dá o formato e reveste a massa, como é feito com o salame tradicional.

No laboratório os alunos adaptaram uma churrasqueira que serve como defumador. Os salames são curtidos com a fumaça do fogo feito de maravalha de árvores frutíferas, o que agrega um sabor especial ao produto. Segundo o professor da disciplina de Tecnologia do Pescado e coordenador do curso, Ilce Picoli, o salame pode ser feito de vários tipos de peixe, como carpa, tilápia e merluza. Dos testados no laboratório, o que mais agradou o paladar dos alunos foi a tilápia, peixe produzido na região de Caçador.

Como não utiliza nenhum equipamento ou ingrediente especial, o salame pode ser feito por qualquer produtor que disponha da matéria-prima e que já produza o salame de suíno. Por esse motivo, a partir de agora sua produção será foco de um projeto de Extensão Universitária.


(de http://www.clicrbs.com.br/diariocatarinense/jsp/default2.jsp?uf=2&local=18&source=a2057862.xml&template=3898.dwt&edition=10312&section=129)

quarta-feira, 16 de julho de 2008

O que fazer com o aumento do preço dos fertilizantes?

Nos biodigestores a matéria orgânica do esgoto não perde nitrogênio. Já quando ocorre a decomposição aeróbica, este se perde.
A matéria orgânica dos esgotos é rica em fósforo. Aí se torna desnecessário dizer que se dispensam os fertilizantes fosfatados... E assim pode-se dispensar a exploração das fosfateiras, como a de Anitápolis...
E ao mesmo tempo se evita a poluição dos rios, lagos, mares e águas subterrâneas.

Já usar o esgoto "in natura"... ? Tenho minhas duvidas.

Fazendeiros britânicos usam esgoto como fertilizante

ANNA HILL
da BBC

Fazendeiros britânicos estão optando em cada vez maior número pelo uso de dejetos humanos para fertilizar suas plantações.

O custo do fertilizante convencional --que está ligado ao preço do petróleo-- disparou no último ano. Mas muitos proprietários de terras estão adquirindo o material humano de companhias de tratamento de esgoto que não têm mais autorização para despejá-lo no mar.

A empresa Severn Trent Water, que fornece esgoto para a agricultura, disse que nem consegue atender à demanda. Jonathan Barrett, que tem 4,5 mil acres com plantações em Norfolk, no nordeste da Inglaterra, disse que fertilizantes humanos custam apenas 20% do preço do produto convencional.

Mau cheiro

Mas Barrett admite que recebe alguns vizinhos reclamam do mau cheiro de sua fazenda. "Nós estamos fazendo um esforço para misturá-lo bem ao solo", afirma.

"Se nós recebemos reclamações, voltamos aqui e trabalhamos para que ele (o fertilizante humano) se incorpore um pouco mais ao solo."

Dejetos humanos podem ser usados na agricultura, mas não na plantação de vegetais que servirão para saladas, de frutas e aqueles cuja raiz é consumida.

Tony Martindale, gerente de reciclagem da estação de tratamento Seven Trent Water, que fornece 600 mil toneladas de dejetos a fazendeiros todos os anos, diz que houve um aumento de 25% da demanda em relação a anos anteriores.

Todos os esforços estão sendo feitos para que não haja risco para a saúde humana, disse Martindale, insistindo que 99% dos microorganismos nocivos são mortos no processo de tratamento.

O esgoto vendido também é testado em laboratórios para garantir que eles não contenham metais pesados e não foram registrados casos de pessoas afetadas pelo produto, acrescentou Martindale.

E o mau cheiro? O gerente da Seven Trent Water diz que a empresa está se esforçando para minimizar o problema. "Nós sempre levamos em conta a direção do vento", afirma.

(de http://www1.folha.uol.com.br/folha/bbc/ult272u422834.shtml)

Enquanto isso, em Santa Catarina devastam a Mata Atlântica...

Mais um exemplo de como se pode chegar à sustentabilidade:

Projeto ajuda a preservar Serra do Mar

Em Ubatuba, colheita de 2 mil quilos de frutos rende 1.300 quilos de sementes para polpa e replantio em parque

João Carlos de Faria - O Estado de S.Paulo

- A merenda escolar da rede municipal de Educação de Ubatuba, no litoral norte paulista, vai receber em breve um reforço significativo, vindo de uma nova proposta de sustentabilidade para a Serra do Mar. Cerca de 700 quilos de polpa de juçara serão acrescentados à dieta dos alunos em forma de suco, com propriedades altamente nutritivas para o organismo das crianças, sendo também um passo muito importante para o futuro do meio ambiente naquela região.

A polpa vendida para a prefeitura é parte da colheita da safra do juçara - no ano passado já houve uma primeira experiência -, mas é a primeira com plano de manejo aprovado pela Fundação Florestal e uma estrutura de processamento de frutos aprovada pela Vigilância Sanitária.

MANEJO SUSTENTÁVEL

O plano faz parte de outra ação para combater a extração ilegal do palmito juçara, o projeto Educação Agroflorestal para o Manejo Sustentável nas Comunidades Tradicionais da Mata Atlântica, financiado pelo Subprograma PDA/Mata Atlântica do Ministério do Meio Ambiente e é executado pelo Instituto de Permacultura da Mata Atlântica (Ipema), com sede em Ubatuba.

A proposta visa a coleta de frutos de juçara no entorno e no interior do Parque Estadual da Serra do Mar e está vinculada a uma pesquisa para avaliar os impactos da atividade. A aprovação do plano de manejo possibilita que as comunidades que vivem no interior do parque possam ter renda com o manejo sustentável da floresta e agroflorestas.

As ações de produção de polpa de juçara estão sendo desenvolvidas em cinco comunidades tradicionais de Ubatuba: Ubatumirim, Quilombo do Camburi, Quilombo da Fazenda, Aldeia Indígena Boa Vista e Corcovado.

Segundo o coordenador do projeto, Luciano Corbelini, do Ipema, uma segunda fase, no valor de R$ 350 mil, está sendo negociada com o ministério, para estender o projeto para os Estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Rio de Janeiro, formando a Rede Juçara. "Além do Ipema, estão envolvidas outras 12 entidades que trabalham diretamente no processamento da polpa, de caráter socioambiental atuante, com foco na agricultura familiar e tradicional e a sustentabilidade da Mata Atlântica", explica Corbelini.

COMUNIDADES COMEMORAM

A colheita deste ano, apesar da quebra de cerca de 30%, por causa do excesso de chuva, que impediu que a coleta dos frutos fosse feita a tempo, e por causa de alguns problemas de manejo, deixou animadas as 13 famílias que fazem parte do projeto. No total foram colhidos este ano cerca de 2 mil quilos de frutos, com rendimento de mil quilos de polpa e 1.300 quilos de sementes para serem plantadas, repovoando a região.

"Foi a melhor coisa que aconteceu para a comunidade", afirma entusiasmada a agricultora Laura de Jesus Braga, moradora do Sertão da Fazenda, um remanescente quilombola, onde vivem mais de 40 famílias. Muitas dessas famílias, segundo ela, viviam do corte clandestino do palmito, única alternativa de renda que lhes restava. A comunidade colheu 115 quilos de frutos, o que deve resultar em 50 quilos de polpa e cerca de 75 litros de suco.

A produção será congelada, para ser vendida aos turistas na temporada, na praia, numa lanchonete cedida à comunidade pela administração do Parque Estadual da Serra do Mar. "No ano passado nós já vendemos e a aceitação foi muito boa", revela Laura.



INFORMAÇÕES: Ipema, tel. (0--12) 3848-2682

(de http://www.estadao.com.br/suplementos/not_sup206690,0.htm)

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Em uma das cidades mais poluidas do Brasil...

...mudas cultivadas em garrafas PET:

Para fazer de Cubatão um pomar, mudas em pet

O pescador Josuel de Abreu recolheu garrafas plásticas e terra, investiu R$ 200 e montou um viveiro com diversas espécies de árvores frutíferas

Rejane Lima

O pescador Josuel Ferraz de Abreu, de 33 anos, há 12 morador da Vila dos Pescadores, em Cubatão, na Baixada Santista, montou entre as palafitas um canteiro com mais de 2 mil mudas de árvores frutíferas, todas plantadas em garrafas pet, recolhidas do estuário.

Feito com telhas e tijolos, o viveiro de 18 metros tem camadas de cascalho e terra, recolhida do outro lado do rio. Foi construído grudado à parede do barraco vizinho, que ganhou calhas para que a chuva não alague o plantio.

Pintor afastado por acidente de trabalho, Abreu investiu cerca de R$ 200 em seu projeto. A idéia veio há nove meses, durante uma visita à escola de seu filho Jefferson, de 8 anos. ''Percebi que lá tinha muito espaço vazio e nenhuma árvore. Conversei com a diretora e ela falou que não plantava porque não tinha mudas. Pretendo mudar isso, quero doar mudas para as escolas e toda a cidade'', diz. Migrante nordestino, Abreu vivia em um sítio no interior de Pernambuco. ''Lá eu plantava muito, mas essa terra aqui é boa demais, eu pego do aterro do antigo lixão de Santos. O bom de plantar na garrafa pet é que você transporta junto, leva para onde quiser. É fácil de manusear.''

As centenas de garrafas retiradas do estuário e doadas por vizinhos acumulam-se na casa do pescador e já causaram algumas brigas. ''Primeiro eu não gostei, porque fazia sujeira em casa, mas agora que está dando certo. Aprovei e quero que ele faça uma horta para eu plantar alface, coentro e rabanete'', afirma a mulher de Abreu, a dona de casa Luciana.

Por enquanto, o canteiro tem apenas árvores frutíferas e chuchu. São mudas de laranja, acerola, mexerica, carambola, abacate, jabuticaba, jaca, maracujá, pinha, goiaba, manga, tamarindo, cambuci e pinha. Abreu está esperando as plantas atingirem um metro de altura para replantá-las por toda Cubatão. ''Quero mudar a cara da cidade, que só tem uma avenida com árvores frutíferas'', planeja.

''Em um ano quero ter 10 mil mudas. Em cada metro quadrado de pet dá para plantar cem árvores'', contabiliza. Ele comprou os tambores para o novo canteiro, que pretende erguer onde havia alguns barracos, destruídos num incêndio.

Assim como a família de Abreu, cerca de 9.800 pessoas moram na Vila dos Pescadores, área invadida à margem da rodovia Anchieta, do Rio Casqueiro - e da sociedade. No local, paga-se um taxa simbólica pela eletricidade (não há relógios individuais). Há rede de água encanada.

Já o esgoto é despejado sem nenhum tratamento no mangue. O forte cheiro ruim contrasta com a delicadeza das futuras árvores de Abreu.


(de http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20080713/not_imp205026,0.php)

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Sustentabilidade

Vejam só! Eles conseguiram!

Família come só alimentos orgânicos para provar sustentabilidade

FLÁVIA GIANINI
Colaboração para a Folha de S.Paulo

Ela não protestou nua, nem fez greve de fome, nem abraçou árvores, mas conseguiu uma vitória considerável para qualquer ativista ecológico. Para provar a viabilidade da agricultura sustentável e a importância de pensar a alimentação politicamente, a escritora Bárbara Kingsolver e sua família viveram um ano só comendo alimentos orgânicos que produziam na própria fazenda ou trocavam com pequenos agricultores vizinhos.

A experiência hercúlea, narrada sem perder o bom humor, é contada no livro "O Mundo É o que Você Come" (ed. Nova Fronteira), que está sendo lançado no Brasil.

Hank Daniel/Divulgação
Família viveu um ano comendo só o que cultivava e trocava com os vizinhos para provar viabilidade da agricultura sustentável
Família viveu um ano comendo só o que cultivava e trocava com os vizinhos para provar viabilidade da agricultura sustentável

Formados em biologia, a autora e seu marido, Steven L. Hopp, sempre foram ligados ao campo e à natureza. O casal tentava ao máximo levar um estilo de vida natural e saudável com as duas filhas em Tucson, segunda maior cidade do Estado americano do Arizona. Eles moravam em um sítio, cultivavam legumes e passavam as férias na fazenda da família no interior da Virgínia. Mas dois anos de seca na região de clima árido geraram uma piora progressiva na qualidade de vida.

Assim, os antigos planos para uma vida rural ficaram mais atraentes a partir de 2004. "Bebíamos a água que as autoridades garantiam ser potável, mas elas desaconselhavam o uso nos aquários porque matavam os peixes", disse a filha mais velha do casal, Camille, 21, em entrevista por telefone à Folha. A estudante de biologia garante que a mudança foi compartilhada por todos. "Havia o plano de produzir alimentos próprios. Mas o Arizona era um deserto com poucas opções de culturas familiares viáveis."

A fuga do Arizona ensolarado era uma tentativa de alinhar a vida com a cadeia alimentar e abandonar o comportamento de "leitores de rótulos desconfiados". Mas a despedida da antiga vida passou longe do ecologicamente correto. Antes de encarar os cinco dias de carro até a Virgínia, eles pararam para abastecer o tanque de combustível e a bolsa com um pouco de "junk food".

Ao chegar à fazenda, o primeiro desafio foi definir o cardápio de acordo com as estações do ano. No desafio, exceções para óleo, azeite, vinagre e alguns grãos, de produção e processamento improvável naquela região dos EUA.

O planejamento e a experiência não evitaram os percalços. A perda das hortaliças com a chegada do frio foi só um dos problemas. "Deu medo de não ter o que comer no dia seguinte", conta a estudante. Criatividade era a solução. "Durante uma semana, a base do cardápio foi abóbora. Teve pão, torta, sopa e cozido. Até a sobremesa era de abóbora", lembra.

Matar os frangos que criaram desde pintinhos também não era fácil. "Conflitos morais eram inevitáveis no início, mas aprendemos a valorizar o consumo consciente e a importância desses animais na nossa alimentação durante o inverno", afirma Camille.

A jovem pretende se especializar em nutrição após concluir o curso de biologia. Se abater os frangos já era difícil, imagine perus de mais de 20 quilos. "Precisávamos estocar tudo o que fosse possível antes do inverno", diz. A família produzia artesanalmente salsichas, lingüiças e mussarela.

Receita possível

Todo o trabalho de subsistência era feito em grupo e as dificuldades deixavam as vitórias maiores. Camille se lembra da festa de aniversário de 50 anos da mãe. "Alimentamos mais de cem pessoas apenas com alimentos da região. O cardápio incluía entrada, prato principal e sobremesa", conta.

Ela e o pai participaram do livro. Cada um tem espaço próprio, onde abordam questões sobre política alimentar e produção orgânica. Camille, que durante o ano na fazenda entrou na universidade, fala sobre as dificuldades de manter seu estilo de vida comendo a comida do campus. Também é a responsável pelas receitas criadas, adaptadas ou testadas pela família no período. Ela garante que é possível alimentar crianças avessas a legumes com cookies de abobrinha.

Barbara escreve que, se o atual padrão de consumo gera desgaste ao ambiente, pequenas mudanças têm grandes resultados. "A comida na prateleira de um mercado americano percorreu uma distância maior do que a maioria das famílias percorre nas férias. Em média, 2.500 km. Se cada americano fizesse uma refeição por semana com alimentos locais, 1,1 milhão de barris de petróleo seriam economizados."

A escritora não economiza críticas ao "american way of life". O discurso político ácido, porém, tem argumentação sólida, baseada em dados sobre a cadeia de produção de alimentos. Guardadas as devidas proporções, as críticas servem aos padrões da maioria das grandes cidades.

Hoje, a fase radical passou. A família vive na fazenda, mas compra boa parte do que consome, desde que seja produzida de forma sustentável, de preferência orgânica. Entrar em contato com a terra, consumir alimentos de procedência conhecida, escolher de acordo com a estação e aproveitar ao máximo os recursos naturais: essa é a receita da família para não agredir o ambiente.

O Mundo É o que Você Come
Editora: Nova Fronteira
Quanto: R$ 44,90 (480 págs.)

Site da família: www.animalvegetablemiracle.com


(de http://www1.folha.uol.com.br/folha/ambiente/ult10007u421568.shtml)